Sérgio Silva – 6º Festival de Orgão – Concerto em Machico
Descentralização do Festival prossegue este Sábado com um concerto em Machico – Sérgio Silva é o protagonista
O 6º festival de órgão da MADEIRA aproxima-se do fim e no penúltimo dia, Sábado, 17 de Outubro, vai até à zona leste da Madeira para apresentar o concerto de SÉRGIO SILVA na Igreja de Nossa Senhora da Conceição em Machico, onde se encontra o mais antigo órgão histórico restaurado da Madeira.
O concerto de SÉRGIO SILVA, organista titular da Basílica da Estrela e da Igreja de São Nicolau, ambas em Lisboa, terá lugar às 21H30 e o programa desta noite incidirá no período de ouro (séculos XVI e XVII) da música para órgão da Península Ibérica.
Igreja do Colégio completamente cheia viveu momento histórico
Foi com a Igreja do Colégio repleta que o 6º festival de órgão da MADEIRA viveu na noite de quinta-feira mais um momento alto desta edição ao proporcionar pela primeira vez um concerto a dois órgãos, ao qual assistiram o Secretário Regional dos Assuntos Parlamentares e Europeus, Dr. Sérgio Marques, e o Bispo Emérito do Funchal, D. Teodoro de Faria.
SÉRGIO SILVA, no órgão de coro, e ÉLIO CARNEIRO, no grande órgão, executaram alternadamente peças de Bach, terminando o concerto em apoteose com os dois órgãos a tocarem em simultâneo, com o público a render-se aos dois organistas tributando-lhes no final calorosa ovação.
“Uma grande honra dar a conhecer este instrumento histórico pela primeira vez…”
No final do concerto SÉRGIO SILVA não escondeu a emoção de ter participado neste concerto histórico da organística madeirense declarando que “é uma grande honra ser o responsável por dar a conhecer o instrumento pela primeira vez, é um instrumento histórico que é sempre uma grande mais-valia para qualquer património”, referindo, em relação ao programa executado nesta noite de quinta-feira, que “é curioso que no ano em que se celebra Bach consigamos mostrar a forma como este reportório também se consegue adaptar a estes instrumentos, tanto mais que a nossa organaria é muito específica e ainda assim conseguimos adaptar obras de Bach a estes instrumentos históricos”.
Quanto ao público que encheu a Igreja do Colégio, o organista não escondeu a sua satisfação pela forma como a audiência recebeu o concerto, afirmando que “já pela experiência do passado sei que é um público fantástico mas é sempre muito consolador tocar para uma igreja plena e sobretudo com a receção calorosa como a que tivemos esta noite”, concluindo que “de facto este Festival merece continuar não só para pôr os órgãos a tocar mas também, e sobretudo, pelo público fantástico que tem”.
“Um prazer estar no maior Festival de Órgão a nível nacional …”
“Foi um prazer fazer um concerto Bach neste festival, precisamente no ano em que se comemoram os 330 anos do seu nascimento”, começou por declarar ÉLIO CARNEIRO, para quem “é sempre um prazer estar no maior Festival de Órgão a nível nacional e ainda por cima num concerto na única igreja no país que permite fazer este tipo de concerto com um órgão de coro e um grande órgão que permite fazer este tipo de transcrições e por isso foi uma experiência que deu um grande gozo”.
Referindo-se ao facto de o público ter acorrido em grande número, enchendo por completo a Igreja do Colégio, o jovem organista manifestou o seu contentamento declarando que “é uma experiência que eu não estou tão habituado a ver, eu já tinha ouvido dizer que o Festival de Órgão da Madeira é um sucesso, que tem sempre igrejas cheias, mas ainda assim fiquei impressionado com a afluência do público, com o seu comportamento, com a forma como escutam, notando-se que é um público formado e isso é sempre bom para nós.”
9º Dia – Sábado, 17 de Outubro
O período de ouro (séculos XVI e XVII) da música para órgão da Península Ibérica
A música para órgão na Península Ibérica teve o seu período de ouro entre os séculos XVI e XVII, desde os compositores Cabezón e Carreira até Araújo e Cabanilles. Influenciada inicialmente pelos modelos estrangeiros, é caracterizada pela sua insularidade e conservação, sentida principalmente no século XVII.
Em plena eclosão do Barroco e da sua linguagem harmónica tonal no resto da Europa, apresentava ainda claros vestígios do Renascimento, como o facto de ser composta na teoria do modalismo. Para compensar, o dialeto musical era bastante colorido e enriquecido com fatores pungentes, como o uso frequente de tríades aumentadas, falsas relações, tratamento da dissonância não canónico, contraponto livre, associado a uma variedade rítmica com mudanças súbitas de humor de valores longos e austeros para ritmos frenéticos de dança, com síncopas e acentuações inesperadas.
A textura tipificada a quatro vozes em polifonia modal é um dos princípios assentes para a literatura desta época. O tento, ou tiento, é indubitavelmente o género mais frequente, assumindo várias espécies ao longo dos dois séculos, desde a sua forma mais ancestral ao modo dos ricercari italianos, até ao tiento de falsas e de meio-registo.
A maior parte da música para órgão na Península Ibérica desenvolveu-se no seio da liturgia do rito católico. A necessidade da criação de repertório estaria relacionada, por um lado, com o facto de que as antífonas cantadas não seriam suficientemente longas para acompanhar as procissões do ritual, sendo necessário o órgão completar o momento processional de música, por outro, a prática do alternatim, que consistia em alternar versos de cantochão de determinadas rubricas litúrgicas com pequenos versos instrumentais, caso dos Kyrios de Manuel Rodrigues Coelho. Não obstante, encontra-se alguma produção baseada em temas profanos, como as Diferencias sobre la Gallarda Milanesa, a Canção a 4 glosada e a Corrente italiana.
É irrefutável o facto de que a música sempre foi composta em íntima relação com o instrumento. A organaria na Europa diversificou-se em escolas ou correntes específicas ao longo da história do órgão, temporal e geograficamente. Desta forma, a partir de finais do século XVI, a organaria na Península também tende a assumir um estilo próprio.
Até então, seria semelhante aos órgãos do resto da Europa, sendo mais próximos do modelo flamengo. Excetuando igrejas importantes e catedrais, o órgão português e espanhol entre os séculos XVI e XIX possui geralmente apenas um teclado manual, sem pedaleira. Dadas as limitações impostas pela falta de recursos, os organeiros na Península desenvolveram o engenho de dividir o teclado em duas partes, uma que seria tocada pela mão esquerda e a outra pela mão direita, cada uma com os seus registos próprios, permitindo construir cores diferentes para o mesmo teclado, e assim a distinção de solos na textura polifónica, o que acontece nos tentos de meio registo.
Outra característica típica da organaria ibérica é a disposição de tubos palhetados colocados horizontalmente na fachada do instrumento, que potencia o carácter penetrante deste tipo de registos, frequentemente usados nas peças de batalha.
Um concertista em ascensão com carreira nacional e internacional
Natural de Lisboa, SÉRGIO SILVA começou por estudar Órgão com João Vaz e António Esteireiro no Instituto Gregoriano de Lisboa, tendo prosseguido na Universidade de Évora, onde obteve os diplomas de Licenciatura e de Mestrado em Música, ramo de interpretação (Órgão), sob a orientação dos Professores João Vaz e João Pedro d’Alvarenga.
Para além dos seus estudos regulares, teve oportunidade de contactar com várias personalidades de renome internacional, tais como José Luis Gonzalez Uriol, Luigi Ferdinando Tagliavini, Jan Wilhelm Jansen, Hans-Ola Ericsson e Kristian Olesen. Apresenta-se regularmente a solo e integrado em prestigiados agrupamentos nacionais, em vários pontos do país e em França, Itália, Inglaterra e Espanha. Presentemente, é professor de Órgão no Instituto Gregoriano de Lisboa e na Escola Diocesana de Música Sacra do Patriarcado de Lisboa e é organista titular da Basílica da Estrela e da Igreja de São Nicolau (Lisboa).


